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100 Borboletas no estômago

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Dom | 22.03.20

A nossa história

Tânia Garcia

Tudo na nossa existência básica tem uma razão de ser.
Não sou de acreditar em destino mas acho que as nossas acções,  o nosso empenho e o nosso esforço nos levam ao local onde devemos estar.
E eu acredito que todos pertencemos a algum lugar, a alguém e temos a nossa missão a cumprir.
Caminhei por caminhos tortuosos para chegar onde estou. E tenho a leve sensação de que ainda vou a meio.
Perdi-me na maior parte do caminho e fui deixando bocadinhos de mim junto de cada momento que me mudou.
Hoje dou valor a quem tenho a meu lado e amo com uma intensidade vulcânica (o que não quer dizer que de vez em quando não entre em erupção. Não acontece muito, mas...).
Tenho saudades viscerais de quem perdi pelo caminho porque a sua missão chegou ao fim.
Nunca estou preparada para presenciar o final da jornada de quem mais amo.
Sou egoísta e queria-os todos sempre comigo a apaparicarem-me o ego.
Tenho saudades das conversas que ficaram por terminar, dos beijos que ficaram por dar e pelos cuidados que não mais terei de prestar.
Mas o que me dói mais na alma humana é o facto de saber que não os irei ver a admirarem os meus rebentos. 
Não os irei ver a ensinarem o que me foi ensinado.
Não ouvirei as suas gargalhadas ao lhes contarem as peripécias por mim feitas na idade que terão em cada ano da sua existência. 
Haverá sempre a falta de um sopro nas minhas velas de aniversário. 
Tão injusto saber que não poderei partilhar a minha futilidade em relação às rugas e aos cabelos brancos que irei ter.
Hoje, talvez por ter muitas estrelas no meu céu,  sei que cabe-me a mim passar os ensinamentos que me passaram, de rir até doer a barriga ao contar todas as peripécias que realizei e que me contaram. 
Todas as partilhas em cada Natal onde o pouco que podia haver se sobrepunha à abundância de amor à mesa.
Cabe-me a mim manter viva a memória de quem já não me acompanha na minha jornada.
E os meus filhos até poderão não sentir empatia por quem não conheceram mas irão saber que a mãe deles foi amada e feliz na presença deles todos.
E isso é não deixar esquecer que é muito mais que o nome que consta na certidão de nascimento.  É a nossa história. ❤❤❤